Putin, Xi e o sonho da imortalidade

Por : Farid Mendonça Júnior
Advogado, economista, administrador e Assessor Parlamentar no Senado Federal

Desde os primórdios da humanidade, o desejo de vencer a morte acompanha o homem como uma sombra. Reis, imperadores e filósofos imaginaram fórmulas, alquimias e rituais capazes de prolongar a vida indefinidamente. Hoje, esse antigo anseio ganha novas roupagens com a ciência, a tecnologia e o avanço das biotecnologias.

Em uma cena recente, líderes de grandes potências (Putin e Xi Jinping) conversaram sobre a possibilidade de viver até 150 anos, transplantar órgãos indefinidamente e até mesmo alcançar a imortalidade. Essa fala, embora simbólica, traduz uma ambição que ultrapassa o campo da medicina: trata-se do sonho do poder que não se esgota com o tempo.

O ser humano, que antes aceitava a morte como parte inevitável da vida, agora se vê diante da possibilidade real de manipular o corpo, reprogramar células e até transferir sua consciência para suportes artificiais. A inteligência artificial e os humanoides, que já convivem entre nós, reforçam a ideia de que a linha entre natural e artificial está se tornando tênue.

O desenvolvimento da medicina regenerativa, das terapias genéticas e dos transplantes avançados projeta um futuro em que a idade biológica pode ser estendida quase indefinidamente. A promessa não é apenas viver mais, mas viver melhor, com corpos “renovados” pela ciência.

O desejo de imortalidade, porém, não é apenas pessoal. Sempre houve governantes que sonharam com um reinado eterno, com impérios que durariam mil anos. Da Roma antiga ao nazismo de Hitler, a ideia de permanência absoluta foi constantemente associada ao exercício do poder.

Se a tecnologia permitir que líderes prolonguem suas vidas por séculos, o sonho de um governo eterno pode deixar de ser delírio e se transformar em possibilidade. Aquele que controla a vida pode também controlar o tempo da política e, assim, encarnar a perpetuidade do poder.

Essa perspectiva se conecta ao conceito de singularidade tecnológica, formulado por pensadores como Ray Kurzweil. Segundo ele, em determinado ponto do avanço científico, a inteligência artificial superará a inteligência humana, criando uma ruptura sem precedentes na história da civilização.

Na singularidade, máquinas poderão corrigir erros, criar novas versões de si mesmas e se aprimorar sem depender do ser humano. Nesse cenário, a imortalidade biológica pode se combinar à imortalidade digital, com a possibilidade de transferir consciências para sistemas artificiais.

O sonho de superar o criador (o homem que deseja ser mais do que humano, rivalizando com o próprio ciclo natural) se aproxima. O que antes era mito, hoje encontra respaldo em pesquisas sérias, investimentos bilionários e projetos secretos em laboratórios espalhados pelo mundo.

Entretanto, a busca pela imortalidade não é neutra. Ela carrega implicações éticas, políticas e geopolíticas profundas. Se apenas alguns tiverem acesso a tais avanços, a desigualdade poderá se cristalizar em uma escala sem precedentes: elites eternas dominando povos mortais.

O poder de mil anos, que parecia impossível, poderia ser assegurado por corpos imortais e inteligências ampliadas. A alternância, essência da democracia, ficaria ameaçada. O governante que nunca morre seria também o governante que nunca larga o poder.

O sonho da imortalidade, portanto, não é apenas um avanço médico, mas um projeto de poder. Quando líderes mundiais falam disso em público, não tratam apenas de saúde, mas da possibilidade de romper a barreira final que limita todos os impérios: o tempo.

A humanidade, diante desse horizonte, precisa refletir: a imortalidade é libertação ou prisão? O triunfo sobre a morte pode se converter em submissão a líderes eternos. E, talvez, o mais perigoso não seja a morte ser vencida, mas o poder se tornar realmente imortal.

Hoje, isso pode ser considerado ainda uma ficção científica, mas o futuro a Deus pertence, ou quem sabe, aos homens sem ética e sem freios e aos robôs autônomos e independentes filhos da Inteligência Artificial.

Farid Mendonça Júnior
Advogado, economista, administrador e Assessor Parlamentar no Senado Federal

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