A França em crise e o Welfare State sob ameaça
A França vive, neste momento, um de seus períodos mais delicados desde o pós-guerra. A crise política que se arrasta, marcada por protestos, greves e desconfiança em relação às instituições, reflete um cenário de esgotamento das promessas do Estado de bem-estar social. O modelo francês, admirado por décadas, está sob ameaça não apenas por razões econômicas, mas também pelo desgaste social que mina a coesão nacional.
O problema central reside no alto endividamento público. A dívida pública da França atingiu cerca de 113,9% do PIB no final de 2024 / início de 2025. Esse nível, já elevado, projeta-se para subir ainda mais: estimativas da Comissão Europeia e da OCDE apontam para cerca de 118,4% do PIB em 2026.
A dificuldade do orçamento público se reflete no déficit orçamentário. Em 2024, o déficit geral do governo francês foi de aproximadamente 5,8% do PIB. Ainda que haja intenção de reduzi-lo para cerca de 4,6% em 2026, esse ajuste exigirá sacrifícios significativos.
Esse cenário compromete diretamente o financiamento do modelo de Welfare State. Saúde, aposentadorias, educação e assistência social demandam recursos estáveis que estão sendo pressionados pela necessidade de pagar juros, manter serviços públicos e arcar com pressões inflacionárias. Além disso, os gastos com o serviço da dívida (juros e amortizações) devem se tornar uma das maiores rubricas do orçamento se nada for alterado.
A insatisfação popular é evidente. Movimentos como o “Block Everything” mostram que sindicatos e cidadãos estão dispostos a organizar greves e protestos amplos para resistir ao corte de benefícios, congelamentos salariais ou reformas impopulares. A tentativa do governo de eliminar dois feriados nacionais, congelar pensões e cortar investimentos em saúde suscitou forte oposição.
No centro dessa insatisfação está a questão salarial e o custo de vida. Muitos trabalhadores veem seus salários reais sendo corroídos pela inflação, enquanto os custos com energia, moradia e bens essenciais disparam. Ainda que existam instrumentos de compensação social, estes têm se revelado insuficientes diante da magnitude da pressão inflacionária e dos impostos. Dados recentes mostram que as greves e protestos ganharam força justamente pela percepção de que o Estado falha em proteger o poder de compra do trabalhador.
As desigualdades sociais, embora menores do que em muitos países sem rede de proteção social extensa, estão crescendo. Setores menos privilegiados, regiões periféricas e áreas urbanas desfavorecidas sentem o impacto da estagnação salarial e da diminuição relativa de serviços públicos de qualidade. A redistribuição, até agora, tem mitigado, mas não revertido, essas tendências.
O risco de colapso do Welfare State francês não é mera retórica. Se o Estado não conseguir estabilizar sua dívida, reduzir déficit e ao mesmo tempo preservar gasto social, cortes drásticos serão inevitáveis. Isso pode implicar em reformas de aposentadoria ainda mais duras, cortes de saúde ou educação, ou congelamentos de salários públicos. Medidas que historicamente desencadeiam reação popular.
A desconfiança nas instituições políticas cresce ao ponto de comprometer a legitimidade do Estado. A queda do governo de François Bayrou após perder votação de confiança no parlamento sobre plano de corte fiscal ilustra a fragilidade do consenso necessário para implementar reformas profundas.
Esse quadro frágil da França tem implicações para a União Europeia. Como uma das maiores economias do bloco, qualquer instabilidade econômica e política francesa, seja por escassez de recursos, seja por radicalização política, pode gerar choque nos mercados, menor confiança no euro, e pressão sobre políticas fiscais comuns.
A extrema direita, personificada em Marine Le Pen e pelo partido Rassemblement National, cresce aproveitando esse descontentamento. Seu discurso contra imigração, contra elites políticas, e em proteção ao “cidadão comum” encontra terreno fértil em momentos de crise econômica e social. A credibilidade dessa via aumenta se o Estado de bem-estar parecer incapaz de sustentar seu nível de compromisso. Embora não haja um caminho automático ao poder autoritário, o risco de polarização autoritária cresce.
Além disso, a França, enfraquecida por dentro, fica mais vulnerável externamente. Com tensões renovadas na Europa Oriental, incluindo incursões de naturalidade militar ou de intimidação russa na Polônia e na Romênia, um Estado central forte e coerente é essencial para cooperação em segurança e para credibilidade internacional. Se a credibilidade falhar, alianças podem vacilar. Observadores já notam que mercados e diplomatas europeus acompanham com preocupação a forma como Paris lida com suas dívidas e com as reformas necessárias.
Essa combinação de crise fiscal, insatisfação popular, ameaça ao Welfare State, radicalização política e fragilidade externa, coloca a França diante de uma encruzilhada histórica. Ou o país consegue reencontrar um caminho de reformas equilibradas que preservem seu pacto social, ou arrisca mergulhar em um ciclo de decadência que não afetará apenas sua população, mas todo o equilíbrio europeu.
A França, berço da modernidade política ocidental, encontra-se pressionada a escolher entre preservar seu modelo social com ajustes dolorosos ou abrir espaço para uma guinada radical. O futuro do Welfare State francês e, em grande medida, a estabilidade da União Europeia dependem das escolhas que serão feitas nos próximos anos. O mundo assiste com preocupação ao desfecho dessa crise que pode redefinir o papel da França no século XXI.
Farid Mendonça Júnior
Advogado, economista e administrador
