O passo errado no Tango de Milei!
Farid Mendonça Júnior
Economista, advogado, administrador e Assessor Parlamentar no Senado Federal
A Argentina vive, há décadas, mergulhada em uma sucessão de crises econômicas e políticas que a colocaram em posição vulnerável no cenário internacional. Os governos populistas, tanto de direita quanto de esquerda, prometeram soluções fáceis, mas deixaram um rastro de desequilíbrios fiscais, inflação crônica e endividamento. Coube a Javier Milei assumir um país marcado por esse legado caótico, tentando imprimir uma guinada radical em sua condução econômica.
Nos anos 1990, a tentativa de estabilizar a economia por meio de políticas liberais levou a dolarização parcial e ao atrelamento cambial do peso ao dólar. À época, a medida trouxe alívio temporário, mas ao custo de fragilizar a indústria local, comprometer a competitividade e aumentar a dependência externa. O colapso desse modelo foi traumático: desemprego em massa, explosão da dívida e o famoso “corralito”, que deixou cicatrizes profundas na confiança da população, ao restringir e limitar saques bancários (parecido com que o governo Collor fez no Brasil).
Milei ascendeu ao poder prometendo romper com esse ciclo de estagnação e populismo. A sua receita foi simples, mas drástica: cortar gastos públicos em níveis inéditos, desmontar subsídios e enfrentar a inflação com uma política fiscal austera, combinada com negociações internacionais para assegurar reservas em moeda forte. Era, em sua visão, a única maneira de devolver credibilidade à economia argentina.
De fato, alguns indicadores começaram a dar sinais de melhora. A inflação, ainda elevada, perdeu parte da velocidade. O câmbio, que estava em franca desvalorização, encontrou algum ponto de estabilidade com os dólares emprestados por organismos internacionais. A narrativa de Milei ganhou, por um momento, ares de vitória contra a decadência econômica.
Entretanto, a austeridade teve um custo humano devastador. O corte abrupto nos gastos públicos significou o fim de programas sociais essenciais, o encarecimento da energia e dos alimentos e a ausência de políticas de amortecimento para os mais vulneráveis. Se as contas macroeconômicas pareciam caminhar para o equilíbrio, o povo argentino experimentava a outra face: miséria, fome e desemprego em níveis alarmantes.
Ao colocar a frieza dos números acima da realidade social, Milei deixou uma lacuna grave em sua estratégia. Economistas sabem que ajuste fiscal sem redes de proteção pode produzir resultados políticos desastrosos. Na prática, o presidente alienou parte significativa da população, minando a confiança e a governabilidade de seu próprio projeto.
Nesse contexto delicado, vieram as acusações de corrupção envolvendo sua irmã, Karina Milei, uma das figuras centrais do governo. Ainda que não comprovadas em sua totalidade, elas bastaram para acender novamente o estopim da instabilidade econômica. Os mercados, sempre avessos ao risco político, reagiram de imediato, e a confiança que começava a ser construída evaporou em poucos dias.
A Argentina, assim, voltou ao círculo vicioso que Milei jurava combater. A promessa de um “choque de liberdade” esbarrou na dura realidade de um país fatigado por décadas de promessas não cumpridas. A corrupção, mesmo em casos pontuais, revelou-se como catalisadora de nova onda de desconfiança, expondo a fragilidade estrutural da política nacional.
A crítica central a Milei é que ele ousou, mas não soube dosar. O corte de gastos e o esforço de estabilização cambial poderiam, em tese, abrir caminho para uma reorganização produtiva. Mas, sem políticas sociais mínimas, o projeto tornou-se insustentável politicamente. Uma população exaurida pela pobreza dificilmente tolera mais um experimento econômico sem garantias concretas de melhora em seu cotidiano.
Diante da crise, Milei voltou-se novamente ao que os argentinos conhecem bem: os empréstimos internacionais. Estados Unidos e FMI surgem como os grandes fiadores de sua continuidade no poder. Mas esse caminho também carrega riscos, pois a dependência externa tende a restringir ainda mais a autonomia de um governo já fragilizado internamente.
O paradoxo argentino se renova: a busca pela estabilidade macroeconômica, ao custo da autonomia social e política. A cada novo empréstimo, a Argentina adia a solução estrutural de seus problemas e reforça o ciclo de dependência e vulnerabilidade. O povo, nesse processo, continua sendo o elo mais frágil e sacrificado.
“O passo errado no Tango de Milei” simboliza essa contradição. O presidente que prometeu romper com a decadência encontrou, no fim, as mesmas armadilhas que derrubaram seus antecessores. A tentativa de consertar o país pelo fio da navalha fiscal pode até impressionar em números, mas, sem uma base social sólida, torna-se apenas mais um capítulo da longa tragédia argentina.
Farid Mendonça Júnior
Economista, advogado, administrador e Assessor Parlamentar no Senado Federal
