A outrora terra da liberdade e da democracia se volta contra as mulheres

Por :Farid Mendonça Júnior
Advogado, economista e administrador

Os Estados Unidos, historicamente reconhecidos como o berço da liberdade e da democracia moderna, atravessam um período sombrio de retrocesso. A recente atitude do secretário de Defesa do governo Donald Trump, Pete Hegseth, ao publicar um vídeo defendendo o fim do voto feminino, é um sintoma grave de um movimento político que ameaça direitos duramente conquistados ao longo de mais de um século. Não se trata apenas de uma opinião isolada, mas de um reflexo preocupante de uma agenda conservadora que busca reverter avanços sociais fundamentais.

O vídeo divulgado por Hegseth, no qual se pregam que apenas homens deveriam votar, representa uma afronta direta ao legado da luta sufragista. A proposta de um “voto por domicílio”, no qual apenas o marido e pai teria direito a registrar o voto, ecoa práticas patriarcais que negam a individualidade e a cidadania plena das mulheres. É como se os Estados Unidos estivessem abrindo mão de princípios básicos da igualdade política.

Essa retórica misógina não surge no vácuo. Ela está alinhada com outros ataques do governo Trump contra minorias e grupos vulneráveis. Negros e comunidades afro-americanas vêm enfrentando uma escalada de políticas e discursos que fragilizam seus direitos civis e minam décadas de lutas contra o racismo estrutural. A retórica inflamável da administração tem, inclusive, estimulado a ação de grupos supremacistas, elevando o risco de violência racial.

Os imigrantes também se tornaram alvos constantes. O endurecimento nas regras de vistos, as deportações sumárias e o fechamento de fronteiras são apresentados como medidas de segurança, mas na prática funcionam como instrumentos de exclusão e xenofobia. O sonho americano, que um dia atraiu milhões, vai se tornando um pesadelo para quem busca uma nova vida em solo norte-americano.

As universidades e a ciência não escaparam desse cerco ideológico. Cortes orçamentários, censura a pesquisas e tentativas de impor visões religiosas em currículos acadêmicos ameaçam a liberdade de pensamento. Ao desacreditar especialistas e promover o negacionismo científico, o governo mina a própria base do desenvolvimento e da inovação que sempre foram marcas do país.

O impacto sobre a ciência é profundo e perigoso. O desmonte de programas de pesquisa e a perseguição a cientistas comprometidos com dados e evidências evidenciam um desprezo pela racionalidade que deveria nortear as políticas públicas.

O discurso e as ações dessa administração lembram perigosamente períodos de trevas históricas, nos quais a intolerância e o autoritarismo avançaram sob o manto da “ordem” e da “tradição”. A diferença é que agora essa ameaça se apresenta no seio da maior potência econômica e militar do planeta, com impactos que ultrapassam suas fronteiras.

A defesa do fim do voto feminino, além de absurda, é apenas uma peça de um quebra-cabeça maior: o desmonte das garantias democráticas e o enfraquecimento das instituições. O que está em jogo não é apenas a participação das mulheres na política, mas a própria essência do regime democrático.

Esse tipo de proposta não atinge apenas as mulheres, ele fragiliza toda a sociedade. Ao excluir metade da população de decisões políticas, o país se distancia da ideia de representação e reforça um modelo autoritário onde poucos decidem por muitos. O risco é que tal lógica se expanda para outras áreas, legitimando mais exclusões.

O ataque às minorias raciais, étnicas e religiosas segue a mesma lógica: enfraquecer a coesão social para consolidar o poder de um grupo específico. Negros, latinos, muçulmanos, imigrantes e agora mulheres tornam-se peças sacrificáveis no tabuleiro político. Essa estratégia divide, radicaliza e cria um terreno fértil para a manipulação eleitoral.

A hostilidade contra a ciência e a educação serve a esse mesmo objetivo. Ao minar a capacidade crítica e o acesso à informação, governos autoritários reduzem a possibilidade de resistência popular. O obscurantismo se torna uma ferramenta de controle, e a ignorância, um combustível para a perpetuação do poder.

É inegável que a administração Trump conseguiu catalisar um movimento que não se limita a discordar de políticas específicas, mas que busca redesenhar a sociedade segundo valores excludentes e regressivos. O que se vê é um revisionismo perigoso, que tenta reescrever a história e apagar conquistas sociais fundamentais.

A autoproclamada “terra da liberdade” parece trilhar um caminho oposto, abraçando ideias que se aproximam mais de regimes teocráticos e autocráticos do que de uma democracia liberal moderna. O risco não é apenas interno, quando a maior democracia do mundo retrocede, isso inspira e legitima retrocessos em outros países.

Por isso, resistir a esses ataques é mais do que um dever cívico, é uma defesa global dos valores democráticos. O silêncio diante dessa guinada reacionária pode significar o início de uma era em que direitos antes inegociáveis se tornem moedas de troca política. É o caminho de volta às trevas e, dessa vez, não há garantias de que a luz retornará com facilidade.

Farid Mendonça Júnior
Advogado, economista e administrador

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