COP Climática ou COP Colonial? O Exótico e a Discriminação em Cena
Farid Mendonça Júnior
Advogado, economista, administrador e Assessor Parlamentar no Senado Federal
Desde o momento em que Merz declarou que “todos ficaram felizes por termos retornado à Alemanha” após sua passagem por Belém, sede da COP30, torna-se impossível ignorar o tom pejorativo e o viés implícito dessa afirmação. Ele não apenas comparou a Alemanha como “um dos países mais bonitos do mundo” com o local da conferência, como também implicou que permanecer em Belém era indesejável ou inferior.
Essa fala carrega um resquício claro de superioridade, não apenas sobre um local geográfico (Belém, Amazônia, Brasil) mas sobre uma forma de existência, de hospitalidade, de ecossistema que diverge da Europa temperada, “limpa” e “ordenada”. Quando um líder europeu diz que ficou “feliz por ter voltado” de lá, está implicitamente colocando aquele outro lugar abaixo em uma hierarquia que, historicamente, remete ao colonizador que julga o “novo mundo” ou “as terras tropicais” como segundo-plano, menos confortáveis ou civilizadas, um “quinto dos infernos”.
Além disso, a escolha do vocabulário, “daquele lugar onde estávamos”, reforça a sensação de distanciamento, de exotização. Há um “ali” e “nós cá”, uma divisão clara entre o “centro civilizado” e a “periferia inconveniente”. Em termos simbólicos, isso equivale a um discurso que alimenta o estereótipo de que os países tropicais são meramente palco para os ricos executivos ou conferencistas turistas, e não protagonistas autônomos de seu próprio destino ambiental e social.
Outro aspecto relevante é que a fala ignora o papel fundamental das populações tradicionais, dos povos indígenas e ribeirinhos da Amazônia, que são os verdadeiros guardiões da floresta, enquanto o “primeiro mundo” se apresenta como visitante crítico, “salvador” ou “juiz” do planeta. Ou seja, há um deslocamento moral e hierárquico. O norte global fala, define e julga, e o sul global sofre, protege e raramente é ouvido como sujeito igual.
No plano das conferências sobre clima, como a COP, há de fato uma dose real de elitismo: delegações, jantares, coquetéis, decisões sendo tomadas em salões de hotéis europeus, com champanhe e ar condicionado, longe de mosquitos, de calor intenso, de florestas tropicais e de habitantes que realmente vivem diariamente sob risco de desflorestamento, invasão e mudança climática. Assim, é muito fácil debater crise climática num ambiente protegido, confortável, longe da mata, do som dos rios ou do convívio com os povos que mais sofrem.
Quando essa realidade se aproxima, como em Belém, o desconforto se revela. O visitante europeu percebe: “não era tão confortável aqui”, “quer voltar para casa”, “feliz por ter ido embora”. Esse tipo de comentário transmite a ideia de que o local é menos digno de estadia, menos digno de atenção permanente, e apenas aceitável como palco temporário para a conferência. Mas não como destino de permanência, de igualdade.
Dessa forma, a fala de Merz não é um “lapso diplomático” isolado, ela está embutida em um contexto maior de colonialismo climático, de “ditar regras” do mundo desenvolvido para o mundo em desenvolvimento. Quando o estadista alemão sugere que estava “feliz por ter voltado para casa”, ele reafirma no discurso que o “meio civilizado” (Europa, Alemanha) é o padrão, e que o “meio periférico” (Belém, Amazônia, Brasil) é algo a ser tolerado, suportado ou visitado, mas não plenamente integrado como parceiro igual.
É preciso destacar que, enquanto esses discursos se repetem, os verdadeiros atores da proteção ambiental, comunidades tradicionais amazônicas, quilombolas, ribeirinhos, ficam fora dos holofotes, invisibilizados sob o glamour das cúpulas internacionais. E mais: as decisões tomadas nessas conferências muitas vezes refletem uma visão europeia de “solução” para o clima, que não necessariamente considera a cosmovisão, a autonomia e a justiça ambiental desses povos. Eles não são convidados para coparticipar verdadeiramente como iguais, mas como “beneficiários” das doações, das fundações, das “ajudas”.
Portanto, quando se pergunta “quem gostaria de ficar lá?” e ninguém levanta a mão, como relatado por Merz, o que se esconde por trás não é meramente uma preferência pessoal, mas sim uma visão global: a Amazônia e a floresta tropical são desconfortáveis para o visitante de primeira classe, são territórios de lazer ou de exotismo, mas não de permanência digna. Isso ecoa o pensamento de que “lá embaixo” é para servir de cenário à conferência, não para ser palco de protagonismo.
Por fim, é importante lembrar que a crise climática exige cooperação global, sim , mas essa cooperação deve reconhecer a justiça climática: que os países que menos contribuíram para o aquecimento global são muitas vezes os que mais sofrem suas consequências, e que os povos da floresta não são apenas vítimas, mas agentes centrais. A arrogância de sentir “aliviado” por deixar Belém mostra que o discurso climático permanece contaminado por olhares com fundamentação colonizadora e racista: “eu venho, avalio, decido, volto para casa”. Enquanto isso, os que ficaram, os que resistem, continuam vivendo a Amazônia real, sem aplausos, sem champanhe, e provavelmente sem ter sido perguntado se querem mesmo “voltar para a Alemanha”.
A fala do chanceler alemão foi um deslize que revela muito mais do que palavras isoladas, revela uma estrutura de pensamento que mantém a hierarquia global, invisibiliza populações tradicionais, reduz a crise climática a um evento de elite, e perpetua a ideia de que o “primeiro mundo” define e o “mundo subdesenvolvido” executa. E se queremos verdadeiramente enfrentar o clima com justiça, equidade e profundidade precisamos também desconstruir essas vozes que operam no palco como se nada mudasse entre a Europa e a Amazônia, entre o Salão dos Espelhos do Palácio de Versalhes e a comunidade ribeirinha.
Farid Mendonça Júnior
Advogado, economista, administrador e Assessor Parlamentar no Senado Federal
