Uma hora o shutdown econômico pode ser definitivo!

Farid Mendonça Júnior
Economista, advogado, administrador e Assessor Parlamentar no Senado Federal

Imagine um país que, da noite para o dia, amanhece paralisado. Museus públicos fechados, monumentos históricos com placas de “suspenso até segunda ordem”, serviços públicos parados, servidores colocados em licença sem remuneração e outros obrigados a trabalhar sem receber salário. À primeira vista, parece cenário de ficção científica ou algo típico de países com regimes centralizadores ou comunistas e instituições frágeis. Mas não é. Trata-se dos Estados Unidos, a maior economia capitalista do planeta, que neste 1º de outubro de 2025 mergulhou mais uma vez em um shutdown governamental.

O fenômeno do shutdown não é novo nos EUA. Ele ocorre quando o Congresso não aprova o orçamento do governo federal dentro do prazo legal, impedindo a liberação de recursos. Sem dinheiro, órgãos federais suspendem suas atividades. A consequência imediata é a paralisação de serviços não considerados essenciais: bibliotecas, parques nacionais, museus, monumentos, institutos de pesquisa. Desta vez, o Monumento a Washington fechou suas portas; a Ilha Ellis suspendeu visitas; e até a Estátua da Liberdade, símbolo maior da liberdade americana, ficou sob risco de fechar.

Mas o problema não se restringe ao turismo ou à imagem internacional. Ele atinge em cheio a vida cotidiana de milhões de cidadãos. Servidores da Administração Federal de Aviação (FAA), por exemplo, foram mandados para casa, enquanto 13 mil controladores de tráfego aéreo seguem trabalhando sem salário. No setor de saúde, 41% dos funcionários do Departamento de Saúde e Serviços Humanos foram dispensados, e pesquisas médicas ficaram comprometidas. No Pentágono, mais da metade dos 742 mil funcionários civis será afastada.

Isso revela uma contradição profunda: os EUA, que se apresentam como o berço da estabilidade financeira global, convivem com uma instabilidade fiscal recorrente. A dívida pública americana já ultrapassa os 36 trilhões de dólares, crescendo de forma muito mais acelerada do que o próprio PIB do país. Ano após ano, déficits orçamentários se acumulam, e a solução adotada pelo Congresso tem sido o aumento da dívida pública com a emissão de mais títulos públicos.

Esse mecanismo funciona como um remédio paliativo. Ao invés de atacar as causas estruturais do desequilíbrio, aumenta-se o estoque da dívida. A curto prazo, garante-se o funcionamento da máquina pública. Mas a médio e longo prazo, o peso da dívida se torna insustentável, ampliando o risco de crises mais severas. É como se os EUA vivessem permanentemente no fio da navalha, sustentando sua hegemonia sobre uma base financeira cada vez mais instável.

Muitos poderiam pensar: esse cenário lembra mais a realidade de países pobres ou em desenvolvimento, como o Brasil. No entanto, os números revelam uma ironia. A dívida brasileira, tanto em termos absolutos quanto proporcionais ao PIB, é menor do que a americana. Claro que isso não significa que a situação do Brasil seja confortável. Ainda precisamos buscar equilíbrio fiscal e retomar superávits. Mas a dimensão do problema americano é maior e mais explosiva.

Durante os shutdowns, alguns serviços essenciais continuam funcionando. O pagamento de aposentadorias, a segurança nacional e a atuação de militares são mantidos. Porém, milhares de funcionários civis do Pentágono foram afastados, projetos de infraestrutura em Nova York foram suspensos e tribunais federais podem ter suas atividades limitadas se a paralisação se prolongar. Esses impactos corroem a confiança interna e externa nos Estados Unidos.

O curioso é que, quando crises fiscais atingem países da América Latina, da África ou da Ásia, o discurso dominante é que esses países são desorganizados, incapazes de gerir suas próprias contas. Porém, quando a mesma instabilidade se instala no coração do capitalismo mundial, ela é tratada como parte do jogo político normal. O que muda não é a gravidade, mas a forma como a narrativa é construída.

Outro aspecto a ser observado é o custo político. O shutdown atual reflete um impasse entre democratas e republicanos sobre programas de saúde. Essa disputa acaba punindo milhões de cidadãos, transformando suas vidas em peças de barganha política.

A cada shutdown, cresce o risco de deterioração da imagem dos Estados Unidos como potência confiável. O país que dita regras sobre disciplina fiscal ao mundo se vê incapaz de garantir previsibilidade interna. Essa contradição pode corroer não apenas sua economia, mas também sua liderança geopolítica. Afinal, como manter o papel de fiador da ordem financeira global quando a própria casa está em desordem?

A sociedade americana já começa a sentir o impacto. Parques desertos, pesquisas científicas interrompidas, atrasos na divulgação de dados econômicos. É um lembrete de que mesmo a maior economia do planeta depende da confiança em suas instituições para funcionar.

O que vemos, portanto, é a manifestação de um problema global. Dívidas crescentes, déficits orçamentários, governos adiando soluções estruturais e apostando em paliativos. Os EUA são apenas a face mais visível de um sistema que pode, em algum momento, implodir. O shutdown é um sintoma, não a doença. A doença é o modelo econômico que se sustenta em déficits contínuos e no endividamento sem limites.

Talvez sejam os Estados Unidos que precisem ser consertados, e por quê não o próprio capitalismo.

Farid Mendonça Júnior
Economista, advogado, administrador e Assessor Parlamentar no Senado Federal

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