ZFM+ESG: a jornada de política pública que está reposicionando a Zona Franca de Manaus na economia verde

Por Luiz Frederico Oliveira de Aguiar  Administrador Público e Superintendente-Adjunto Executivo da Suframa.

A gestão pública contemporânea exige mais do que a simples eficiência operacional; ela demanda uma visão estratégica capaz de harmonizar o desenvolvimento econômico com a preservação socioambiental. Como bem asseverava Peter Drucker, “a melhor maneira de prever o futuro é criá-lo” mas, no setor público, como ressalta Robert Denhardt, trata-se de servir, envolver e gerar valor público. Na Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), sob a liderança do Superintendente Bosco Saraiva, decidimos que o futuro da Amazônia e do Polo Industrial de Manaus (PIM) deve ser, indubitavelmente, pautado pelas diretrizes ESG (Environmental, Social and Governance).

Desde 2023, iniciamos uma jornada transformadora para integrar a cultura ESG no cerne da política pública de desenvolvimento regional. Esta trajetória não é apenas um exercício de conformidade, mas uma inovação institucional que busca encontrar o “melhor caminho” para uma Amazônia que produz e preserva. Inspirados por teóricos como Amartya Sen, que define o desenvolvimento como a expansão das liberdades humanas, compreendemos que fomentar práticas sustentáveis no PIM é, fundamentalmente, promover o desenvolvimento humano e a competitividade global da nossa indústria.

Nosso primeiro movimento foi ouvir o ecossistema e tornar a pauta pública. Ainda em 2023, com a parceria do CIEAM (especialmente sua Comissão ESG), realizamos na Suframa um encontro inaugural para compartilhar práticas e ambições — gesto essencial de governança colaborativa e de aprendizagem coletiva. Em paralelo, trabalhamos o “ESG interno”: utilizamos o instrumento iESGo, do Tribunal de Contas da União (TCU), para avaliar a governança e a sustentabilidade na Administração Pública e construir um Plano de Providências, porque exigir das empresas sem aprimorar a casa seria incoerente.

Em 2024, consolidamos a mobilização com o 1º Fórum ESG Amazônia, novamente na sede da Suframa, e com transmissão aberta — reforçando o papel de orquestrador público da Autarquia e o compromisso com transparência e participação. O objetivo: preparar o setor produtivo para as exigências da economia de baixo carbono e para eventos estratégicos como a COP30, alinhando a indústria ao que Mintzberg chama de estratégia como processo social e de aprendizagem contínua.

O amadurecimento dessa estratégia culminou, este ano, no lançamento da Iniciativa ZFM+ESG, instituída pela Portaria Suframa nº 1.860, de 21 de março de 2025. Este programa marca um divisor de águas: pela primeira vez, estabelecemos um marco voluntário e educativo para incentivar o setor produtivo a adotar práticas ambientais, sociais e de governança robustas. A iniciativa não foca na penalidade, mas no estímulo e no reconhecimento. As empresas que aderem ao programa comprometem-se com requisitos de transparência e impacto positivo, podendo receber o certificado ZFM+ESG após a implementação comprovada de suas jornadas sustentáveis. Trata-se de uma modelagem de gestão pública que valoriza a governança colaborativa e a segurança jurídica, criando um ecossistema onde a bioeconomia amazônica e a indústria de alta tecnologia caminham lado a lado. Esse desenho é coerente com os clássicos de gestão pública: criar incentivos, reduzir custos de transação e promover coordenação (Osborne & Gaebler), sem sufocar a autonomia empresarial; fazer governança por instrumentos (Hood; Lascoumes & Le Galès), mantendo capacidade estatal de monitoramento e aprendizagem. O lançamento da Iniciativa ZFM+ESG ocorreu durante o II Fórum ESG Amazônia, em parceria com o CIEAM.

A consolidação prática desse esforço foi celebrada recentemente no 1º Encontro ZFM+ESG: Jornadas Sustentáveis na Amazônia, realizado em 27 de novembro de 2025 na sede da Suframa. O evento não foi apenas um fórum de debates, mas uma demonstração de força da rede que construímos. Reunimos parceiros estratégicos como o CIEAM, a UNICEF e diversas empresas que já são cases de sucesso em descarbonização, eficiência energética e impacto comunitário. Durante o encontro, enfatizamos que o investimento social privado é uma estratégia de negócio que gera valor compartilhado, especialmente quando conectado aos direitos das crianças e adolescentes e à resiliência climática das comunidades locais. Na prática, vemos casos empresariais que reforçam essa convergência: de inventários de carbono e transição energética a circularidade de materiais, parcerias comunitárias e compliance — elementos que a Iniciativa ZFM+ESG sistematiza como mínimo viável para uma jornada de maturidade.

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Avançamos significativamente, mas guardamos a consciência de que o caminho é longo. Inovar em política pública em um território tão complexo quanto a Amazônia, exige persistência e humildade administrativa. Sabemos que ainda há muito a progredir para que a Zona Franca de Manaus atinja seu pleno potencial de referência global em sustentabilidade.

Nosso sonho é claro: consolidar a ZFM como o modelo de desenvolvimento sustentável mais eficiente do mundo, onde a indústria seja o motor de proteção da floresta e de valorização da nossa gente. Estamos trilhando o caminho para que, no futuro próximo, a ZFM e a temática ESG sejam parceiros inseparáveis e isso seja reconhecido internacionalmente como sinônimo de excelência ética, ambiental e social, provando que a prosperidade econômica e a conservação da vida são, em última análise, faces da mesma moeda.

Como administrador público, vejo nesta iniciativa a política pública no seu melhor: inovadora, colaborativa, baseada em evidências, com incentivos adequados e orientada a resultados. Mintzberg lembraria que estratégia é aprendizagem contínua; Osborne & Gaebler diriam que é governar mais por missão e menos por meios; Denhardt reforçaria que é criar valor público; Bresser-Pereira e Bouckaert frisariam a importância de capacidade estatal e accountability. É exatamente isso que estamos fazendo: convergindo indústria, ESG e bioeconomia amazônica — com ambição global e pés no chão.

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